A posição que alcançou, em um país que ainda era uma monarquia escravocrata, durante parte de sua vida, é apenas uma das incontáveis façanhas deste gênio das letras brasileiras. Seu espírito decidido e seu poder criativo conseguiram levá-lo do Morro à Academia Brasileira de Letras, instituição da qual foi um dos fundadores e presidente perpétuo. Viveu o fim do Romantismo e o começo do Realismo. Seus romances de forma realista demonstra a sua vocação verdadeira: contar a essência do homem em sua precariedade existencial. Do ponto de vista humano Machado de Assis, em sua obra Memórias Póstumas de Brás Cubas desnuda a natureza humana. A vida vem à tona nas frustrações, nos rancores, nas vaidades, nos ciúmes, nos desvios de personalidade, na mesquinhez do caráter e nas atitudes e sentimentos denunciadores da pequenez humana. Afinal, qual a condição humana? Que papel tem o homem na vida? A existência humana leva-nos a que destino?
“A revolução dessa Obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas”. ( BOSI, 1987:177)
As palavras de Alfredo Bosi em sua Obra História Concisa da Literatura Brasileira afirmam que as bases filosóficas da segunda metade do século XIX, estão baseadas no Determinismo, no Positivismo e no Evolucionismo, e evidenciam inéditas observações sobre o comportamento humano. A arte então passa a ser a representação metafórica da História, apresentando por sua vez, novos paradigmas, reunidos sob o nome de Realismo.
No plano sócio-econômico, a burguesia conquistará definitivamente o poder. O desenvolvimento científico, materialista e racional substituirá o idealismo e o tradicionalismo, mostrando-se no crescimento das cidades, na instalação de fábricas, na utilização de novas formas de energia e em maneiras de viver que, se por um lado revelam um grupo social em flagrante progresso, por outro lado deixam à mostra o vazio da existência humana.
Quando Machado de Assis escreveu Memórias Póstumas de Brás Cubas fez um livro da época. O defunto narra uma história em 1881, que ocorreu em 1969. Ele consegue trazer para o presente uma história do passado. Quanto ao delírio de morte Brás Cubas encontra-se com a Mãe Natureza e esta lhe cobra ...levando-o até ao início dos tempos..."para o tempo não importa o minuto que passa, mas o minuto que vem..."
Incrível a consciência, a evolução deste ser humano. Ele consegue demonstrar isso através de situações vividas pela pernonagem mas que na realidade é dele próprio.Uma vida medíocre, cheia de insucessos e de pouco valor no que diz respeito à moralidade e evolução como ‘ser humano’. Brás Cubas não teve nenhum trabalho digno, pelo simples fato de ter dinheiro e estar sempre ocupado com sua(s) amante(s), que não tenham nenhuma moral. Já no início , se diz um defunto autor.
Quando se dá conta de que havia morrido, sente ‘frio’ , o que o leva até o início dos fins. A visão de que a vida termine com a morte. Mas como? Se ainda existem memórias após cem anos? E se existe o fim, onde começa o início? E é a partir da morte, que Brás Cubas consegue analisar toda sua vida de maneira crítica e muitas vezes bem-humorada, pois:
“... uma atitude que pretende ser justa para com o inconsciente e para com o outro não pode depender unicamente do conhecimento, se este consistir apenas em intelecto e intuição. Faltar-lhe- ia a função de valores, a saber, o sentimento e a fonction du réel, ou seja, o levar em consideração a realidade, a sensação. (JUNG.1998)
Realidade, para qual não importa o minuto que passa, mas o minuto que vem. Daí Brás se transportar à origem dos séculos , e se encontrar com a Natureza. O “não espaço”, onde tudo é gelado e mudo, indiferente e estranho ao homem. A proclamação da falta de sentido da existência, a negação do destino do homem:
“Se é preciso pagar pelo caminho errado, o certo também tem seu preço. A natureza se alegra com a natureza, a natureza vence a natureza e a natureza domina a natureza”. (JUNG. 1998:127)
Brás assiste à triste sucessão dos impérios, às eternas paixões que escravizam o homem, a cada geração seguir-se a anterior, e todas elas pontuais na sepultura. A visão da natureza como mãe e inimiga. Mãe porque criou o ser humano, inimiga porque se mantém impassível diante do sofrimento, que só terá fim com a morte. O homem cobiça, persegue quimeras, e é abatido: devora e é devorado, pois seus “instintos não estão em harmonia uns com os outros: exercem violenta pressão uns sobre os outros e tentam eliminar-se reciprocamente . No entanto, segundo a ótica otimista dos antigos, esta luta não tem caráter caótico, mas busca uma ordem superior”.(JUNG.1998:127)
Uma ordem que, segundo Freud só pode ser concebida se pudermos entender que:“A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é fonte o bastante para contrabalançar a pulsão da morte, embora no final esta se resulte mais forte. Podemos entreter a fantasia de que a morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a morte, não fosse por seu aliado dentro de nós”. (FREITAS. 2001: 147)
Em sua vida, Brás teve que decorar as orações, pois não lhe faziam sentido. O importante é que ninguém passa as dimensões metafísicas sem ter desenvolvido suas virtudes, resolver o que ficou pendente e ter aprendido a submeter-se à vontade de Deus. A religião não importa, o importante mesmo é cumprir estas etapas e estas se cumprem melhor nos conhecimentos das regras certas a serem respeitadas. Muitas destas estão nas religiões, mas não na prática.
Neste sentido, as palavras de Jung em sua Obra Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferência, também são esclarecedoras:
“Os terríveis documentos do nosso tempo estão aí, à vista de todo mundo. Sua monstruosidade ultrapassa tudo o que nos tempos antigos se esperava conseguir, sem contudo dispor dos meios necessários para tal. Se o inconsciente fosse apenas nefasto, mau – como muitos gostariam que fosse – a situação seria simples e o caminho bem definido; praticar-se-ia o bem e se evitaria o mal. Mas o que é bem e o que é mal? (JUNG.1988:59)
Brás andou por toda a Europa, tendo uma mulher em cada país, não se importando com a responsabilidade de uma relação amorosa. Depois de muito tempo nesta vida de futilidades, voltou para casa (RJ), devido à doença e morte de sua mãe. “ Resolvi trocar as mulheres por minha mãe e a Europa por minha casa”, declara. Seria o momento de mudar ? Visto que,
“na vida humana existem os momentos de virar a página. Aparecem tendências e interesses até então não cultivados; ou se anuncia uma mudança de personalidade (chamada mudança de caráter). (JUNG.1998:50 )
Essas mudanças revistas em sua vida, levou o narrador-defunto a constatar com pessimismo a falência e a degradação dos valores que regem a vida humana. Assume também uma posição de discrença absoluta em relação à saídas religiosas, filosóficas e ideológicas.
Segundo Pedro Sette Câmara em sua Obra, Machado Inconstruído, o pessimismo na obra machadiana não é universal, mas é antes um pessimismo quantitativo, ou seja, um pessimismo em relação a matéria, e que surge apenas em termos contingentes, existenciais, pois o materialismo não deixa de ser uma confusão entre essência e existência.
Ainda segundo o autor, Machado, estava consciente do que fazia, e era certamente pessimista em relação ao intelecto de forma geral, mas de maneira alguma de forma universal. “Ainda que sua época se afundasse em vaidades, ele soube guardar o fundo espiritual, perene, que lhe desse a segurança de navegar em águas turbulentas”.
Contudo, Brás Cubas, em suas observações filosóficas, sugere ao leitor que a sua inteligência está além da mediocridade humana: “Machado de Assis foi o autor brasileiro que introduziu a perspectiva crítica, fazendo da dúvida, do questionamento e da argumentação, uma constante em sua obra. É o discurso persuasivo que pretende ganhar adesão do leitor, pela razão e pela paixão, da impossibilidade do acesso à certeza divina. Tudo é transitório, elativo, finito...” (FREITAS. 2001: 63 – 64)
Brás confessa que a primeira virtude de um defunto é a franqueza, pois, na vida, o olhar de opiniões, a diferença de interesses, a luta das cobiças, nos obrigam a esconder, disfarçar e enganar os outros, ao passo que “na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Será que o ser humano é filosófico por natureza?”
Tais reflexões de Brás Cubas têm a finalidade de entender a vida e a existência humana, buscando dar consistência às suas atitudes. O Humanitismo , por exemplo, filosofia inventada por Quincas Borbas, e que declara o desencanto, e o abandono, afirmando que a vida é um campo de batalha, onde só os mais fortes sobrevivem, demonstra que: “Somente quem conhece os dois lados pode ter compaixão por um deles; somente quem conhece a vida do espírito sabe a que infernos desce o mundo puramente material”.
Ou Machado certamente se utilizar da eternidade em Brás Cubas, o ponto de partida explicitamente metafísico de uma história que começa da consciência do nada e termina no nada, diz Pedro Sette Câmara.
Brás tentou ser político, mas não se deu bem, filiou-se a uma ordem benemérita , visitou cemitérios, velórios, defuntos e ao acaso reencontrou Virgília ( sua amante) no velório do marido Lobo Neves. Uma imensa paixão que também não o levou a nada. Vendo-a, jura tê-la amado verdadeiramente, e , concluiu que ela havia amado realmente o seu marido, pois chorava com sinceridade. A atmosfera lúgubre e macabra, é a marca de uma infelicidade de erros pessoais e sociais. O tempo destrói as ilusões e envelhece as pessoas. Ninguém é sincero ou verdadeiro.
“Quando levantou a cabeça vi que chorava deveras. Ao sair do enterro, abraçou-se ao caixão, aflita; vieram tirá-la e levá-la para dentro. Digo-vos que as lágrimas eram verdadeiras. ...os soluços de Virgília. Os soluços, principalmente, tinham o som vago e misterioso de um problema. Virgília traíra o marido, com sinceridade". (ASSIS. 1978:167 )
Tamanha foi sua decepção, que resolveu entrar de cabeça num negócio, para criar algo do qual ele fosse lembrado eternamente, o “Emplasto Brás Cubas”, o milagre divino, mas que também não deu certo. Como conseqüência desse intento tanta banalidade, “tomou um ventinho” que o levou a uma pneumonia e o matou.
Cobiça, interesse, falsidade e dissimulação foi o que Machado encontrou por trás das máscaras e das convenções sociais: “Nietzche aborda o perigo que ronda o filósofo em sua tentativa de engendrar o artista genial: a melancolia, que brota do reconhecimento de que seus impulsos não têm onde se manifestar, de que sua época é fraca e alheia aos seus anseios, de que ele não possui os meios certos”. (NIETZSCHE.1988:07)
De sua vida ele concluiu: ‘não alcancei a celebridade, não fui ministro, não conheci o casamento, e não comprei o pão com o suor do meu rosto’. Filho de família abastada, nunca precisou ‘suar a camisa’ para garantir seu sustento. Pensou em ingressar na política, mas não teve êxito. Limitava-se a aproveitar a vida:
“Vivemos numa época de conturbação e desintegração. Tudo tornou-se problemático. Como costuma acontecer em certas circunstâncias, conteúdos do inconsciente forçam passagem para as fronteiras da consciência com a finalidade de compensar a situação de emergência. Vale a pena, pois, examinar minuciosamente todos os fenômenos-limites por mais obscuros que possam parecer, a fim de descobrir neles os germes de uma nova ordem possível.” (JUNG. 1998:186)
Somando as positivas e as negativas, Brás saiu quite com a vida. Teve saldo positivo porque não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura , o legado de nossa miséria. Com esta exclamação a personagem deixa claro, que ao menos, não teve que deixar a outros de sua linha genética, o exemplo de ter sido tão vazio e improdutivo em toda a sua existência.
“ O fenômeno da transferência é, sem dúvida alguma, uma das síndromes mais importantes e decisivas do processo de individuação e significa mais que uma simples atração e repulsa de ordem pessoal. Graças a seus conteúdos e símbolos coletivos, ele ultrapassa de longe a pessoa, e atinge a esfera social, trazendo-nos a memória aqueles contextos humanos superiores, que, por doloroso que seja faltam à nossa ordem, ou melhor, à desordem social dos nossos dias. Os símbolos do círculo e da quaternidade, tão característicos do processo da individuação, remetem-nos, por um lado, ao passado, a uma ordem originária primitiva da sociedade humana e, por outro, apontam para o futuro, rumo a uma ordem interior da alma, como se esta fosse o instrumento indispensável à reorganização da comunidade cultural, em oposição às organizações coletivas tão apreciadas hoje em dia, as quais constituem um agregado de seres semi-humanos, inacabados e imaturos.” (JUNG. 1998: 186-187)
De nada vale a vida se for vivida somente para a matéria, pois ela fica. O que faz o homem ser lembrado eternamente é a boa obra que desenvolveu na vida e não a boa vida que ele teve. Machado de Assis com Brás Cubas satirizou um mundo que nos incentiva a conhecer tudo, menos o essencial. Brás Cubas evoluiu por si mesmo e compreendeu depois de morto o engano que sofreu, visto que o ser humano vive na terra para progredir e se tornar útil; e, para alcançar este objetivo, está sujeito às leis físicas e metafísicas para assim demonstrar que entendeu o contexto, e realizar da sua vida uma boa obra, que passa a favorecer o progresso comunitário:
“O homem massificado , contudo não tem valor; é uma simples partícula que perdeu sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade.
Não há vida nova que possa surgir, diziam os alquimistas, sem que antes morra a velha. Do mesmo modo, comparam sua obra à morte do homem sem a qual a vida nova, a vida eterna não pode ser alcançada”.(JUNG.1998 :187 )
Brás Cubas transferiu sua auto-análise pós vida, pois tinha o início e o fim de uma história. A história de sua própria vida.
CONCLUSÃO
Memórias Póstumas, mais do que um título é uma metáfora do fracasso da existência. Atual, a obra tratou dos problemas da vida e da morte, do inexplicável, através de Brás Cubas representando Machado de Assis.
Na simbologia do círculo, Machado e Brás, deixam-nos a evidência da imortalidade da alma.
Você deve estar se perguntando, o que a Natureza tem a ver com tudo isso?
T U D O .
Madomare

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